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sábado, 15 de agosto de 2009

Os 2 capítulos iniciais de Kaori na Cultura!


Trecho inédito de Kaori: Perfume de Vampira

prólogo
O Perfume

A vampira procurou a garganta dele. Samuel gemeu baixinho. O perfume dela, um odor suave, adocicado, chegou até ele, que estremeceu de prazer. Lábios gelados tocaram a pele ardente do seu pescoço. Mas ela não o mordeu ainda. Prolongava, maliciosa, o suplício da espera, da certeza de um final doloroso. Que tardava tanto...

Samuel não conseguia se mexer. Só podia esperar, esperar... Lembranças esparsas roçavam a sua mente cansada. Por que estava ali, prisioneiro dela, prestes a ser envolvido pelo seu abraço mortal? Errara, é certo. Arriscara-se demais. Mas quem não faria o mesmo? Era um homem acostumado a andar no limite entre dois mundos, o dos humanos e o dos vampiros. Mas ela era diferente de tudo que conhecia.

Ela nascera séculos atrás, quando o Japão era ainda um pedaço esquecido do planeta, vedado aos olhos do Ocidente. Um reino dominado por samurais e suas espadas mortais. Por belas cortesãs e suas intrigas sangrentas. E pelas criaturas fabulosas de lendas imemoriais.

– Por favor... – Samuel suplicou, numa última tentativa de resistência.
– Deixe-me ir!
– Não – ela sussurrou. – Você me pertence, agora.

Ele olhou, atordoado, para o teto do quarto. Era o mesmo vermelho chocante dos lábios da vampira. Do sangue que fl uía, veloz, abandonando o seu corpo. Da dor produzida pela mordida na sua garganta. O mundo se tornara rubro, ardente, mortal. Como a fragrância enlouquecedora que emanava daquele corpo gelado, tão desejável!

Samuel fechou os olhos e deixou de lutar. Em suas andanças pela noite dos vampiros, havia pisado num caminho sem volta...


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Bem, esse aí é o prólogo de Kaori. Tem mais dois capítulos disponíveis para leitura no site da Livraria Cultura. Dêem uma lida e comentem, please... Olha o link: http://www.livrariacultura.com.br/imagem/capitulo/2863571.pdf

É Kaori, chegando, pessoal. Finalmente!

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segunda-feira, 23 de março de 2009

Trecho inédito do livro "Kaori - Perfume de Vampira"


Imagem: k.lango.blog.uol.com.br

E, para dar um gostinho do que vem por aí, segue em primeira mão um trecho do meu novo livro. Divirtam-se e continuem torcendo pela titia Giulia...

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"KAORI - PERFUME DE VAMPIRA"
Giulia Moon - 2009


Cap. II. - O Temeroso Encontro com a Mulher-Corva (trecho)


"(...) Num dos aposentos do Kim-Dama-Ya, Missora olhava com cobiça para a menina sentada à sua frente. Ela era ainda mais bonita de perto. Um rosto de criança, a boca pequena e carnuda, os cabelos brilhantes e o corpo esguio. E as mãos! Mãos abençoadas pelos deuses... Pequenas e delicadas como uma pintura. Esta garota não era uma roceira qualquer. Era uma fina boneca, digna dos clientes mais exigentes. A sua iniciação como oiran* seria tardia, pois a maioria das cortesãs iniciava o aprendizado com cinco anos. Mas a mama-san estava convicta de que valia a pena possuir a jovem filha de Gombei.

Kaori examinava sutilmente cada detalhe da madama do Kim-Dama-Ya. Ali estava uma mulher muito bela, mas que falava alto com a voz estridente. Palavras ocas. Mentiras. Subterfúgios. Uma fachada barulhenta que ocultava intenções escusas. Uma corva agourenta e traiçoeira. Entendia as razões que fizeram seu pai se indispor com ela. Mas não pretendia se esquecer das suas próprias razões, que a levaram até ali, arriscando tudo numa jogada decisiva. Curvou-se numa profunda reverência, tocando a testa no tatami**, e disse:

– Meus respeitos, Missora-sama***.

A mama-san gargalhou, deliciada com a demonstração de humildade. E, abanando-se com o leque negro, disse:

– Ora, ora, minha pequena... É com grande surpresa que a recebo em minha casa, pois seu pai, Gombei, não me tem em alta conta. Diga logo o que quer, pois estou curiosa.

– É sobre meu pai mesmo que vim lhe falar, senhora. Estou aqui para oferecer-lhe as nossas sinceras desculpas pelo mal-entendido que nos colocou em posição embaraçosa. Asseguro-lhe que nem meu pai, nem eu, tivemos a intenção de ofendê-la.

Missora perscrutou o rosto impassível de Kaori. A fedelha parecia mais astuta do que o pai obtuso e ignorante. A mama-san respondeu no mesmo tom cortês:

– Agradeço a atenção, pequena. Mas eu nada tenho contra você ou seu pai. Quem deve se desculpar sou eu, pois penso que fui um pouco grosseira com Gombei-san na nossa última conversa...

Kaori fitou os olhos negros de Missora. Será que tudo ia acabar bem, afinal? Seria tão bom! No entanto, percebia nas palavras da mama-san um tom sutil de maldade. A corva tramava algo, com certeza. Precisava manter-se atenta.

– Obrigada, Missora-sama, pela gentileza e benevolência. Agora, parto tranquila, graças às suas palavras.

– Ah, mas já vai anoitecer, menina Kaori. É proibido transitar pelas ruas a esta hora, são ordens do nosso grande senhor xógum. Assim como eu lhe estendi a mão, esquecendo as nossas desavenças, espero que aceite a minha hospitalidade por esta noite. Isso me alegraria muito.

– Obrigada, senhora...

Não havia outra saída, a não ser concordar com a víbora. Mas, de uma forma ou de outra, sob este verniz de civilidade, Kaori lutaria em melhores condições do que numa confrontação direta. Com sorte, pensava poder dobrar a mama-san e salvar seu pai e a si mesma. Fez mais algumas reverências, abaixando a sua cabeça até o tatami em sinal de respeito, e retirou-se, fechando o shoji**** atrás de si."


*Oiran – prostitutas de luxo do período Edo (Tokugawa). Praticavam as artes de dança, música, poesia e caligrafia

**Tatami – esteira de palha entrelaçada que reveste o assoalho da casa japonesa.

***Sama – modo mais formal e respeitoso de “san”, usado para se dirigir a pessoas de altíssima posição.

****Shoji – porta corrediça com os caixilhos forrados de papel.